Como o câncer afeta o metabolismo do corpo

O câncer é uma doença complexa que não atinge apenas o órgão onde se origina — ele afeta o corpo como um todo, principalmente o metabolismo. A partir do momento em que células cancerígenas começam a se multiplicar de forma descontrolada, elas passam a consumir recursos do organismo de maneira exacerbada, alterando profundamente o funcionamento do metabolismo. Entender como isso acontece é fundamental para direcionar estratégias terapêuticas, nutricionais e de suporte que ajudem o paciente a manter a força e a qualidade de vida durante o tratamento.

Do ponto de vista metabólico, o câncer é considerado uma doença catabólica. Isso significa que ele provoca um aumento da degradação de tecidos corporais, principalmente músculos e gordura, para suprir as demandas energéticas das células tumorais. Segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), uma das alterações mais marcantes é o estado conhecido como caquexia, uma síndrome metabólica caracterizada pela perda de peso severa, atrofia muscular, fadiga extrema e redução significativa da resposta imunológica. Essa condição não pode ser revertida apenas com o aumento da ingestão de calorias, pois está associada a alterações profundas no metabolismo de proteínas, carboidratos e lipídios.

Outro ponto importante é que o tumor, mesmo sendo um tecido anormal, é altamente ativo do ponto de vista metabólico. Ele consome quantidades elevadas de glicose — um fenômeno conhecido como efeito Warburg, onde as células cancerosas preferem a via glicolítica para produção de energia, mesmo na presença de oxigênio. Isso leva o corpo a um estado de estresse metabólico contínuo, o que contribui para a sensação de fraqueza generalizada relatada por muitos pacientes oncológicos.

O metabolismo dos pacientes com câncer também sofre impacto por alterações hormonais e inflamatórias. A presença do tumor estimula a liberação de citocinas inflamatórias como TNF-alfa, IL-1 e IL-6, que aumentam a degradação de proteínas musculares e reduzem a síntese proteica, agravando o quadro de perda de massa magra. Além disso, essas citocinas interferem no apetite, contribuindo para a anorexia, comum em diversos tipos de câncer, o que torna a ingestão alimentar insuficiente para suprir as necessidades básicas do corpo.

O fígado e o sistema digestivo também não saem ilesos. De acordo com o livro “Alimentação e Nutrição no Câncer”, publicado pelo INCA, o fígado passa a trabalhar de forma sobrecarregada para metabolizar os resíduos tóxicos resultantes da atividade tumoral e dos medicamentos quimioterápicos, o que pode gerar hepatotoxicidade. Já o trato gastrointestinal pode sofrer inflamações, úlceras e alterações na absorção de nutrientes, prejudicando a biodisponibilidade de vitaminas, minerais e proteínas essenciais.

Todos esses efeitos metabólicos têm impacto direto na capacidade do paciente de responder ao tratamento. Um corpo desnutrido, com reservas musculares reduzidas e metabolismo comprometido, tende a tolerar menos sessões de quimioterapia e radioterapia, apresentando maior incidência de complicações e internações. Por isso, a abordagem nutricional é uma ferramenta essencial no manejo do câncer. Uma alimentação equilibrada, rica em nutrientes de fácil absorção e adaptada ao estágio da doença, pode ajudar a preservar o estado nutricional do paciente, melhorar sua resposta imunológica e proporcionar mais qualidade de vida durante o tratamento.

Segundo o Dr. Drauzio Varella, é essencial que os pacientes com câncer tenham acompanhamento nutricional desde o diagnóstico. Em seu artigo sobre alimentação e câncer, ele destaca que a perda de peso involuntária é um sinal de alerta que deve ser combatido precocemente, pois afeta diretamente a eficácia terapêutica e a chance de recuperação.

Portanto, compreender como o câncer afeta o metabolismo do corpo é fundamental para reforçar a importância de uma estratégia multidisciplinar no cuidado ao paciente oncológico — e a nutrição está no centro dessa abordagem. Ela não apenas fornece energia, mas ajuda a modular o sistema imunológico, a preservar a massa muscular e a aumentar a resiliência física e emocional diante do tratamento.

Fontes utilizadas:
  • Instituto Nacional de Câncer – Alimentação, Nutrição e Câncer: orientações para pacientes, familiares e cuidadores

  • Drauzio Varella – Alimentação do paciente com câncer

  • Hospital de Amor – Conteúdo nutricional em oncologia clínica

  • Scielo – Revisões sobre metabolismo energético em pacientes oncológicos